Arquivos de um prédio retorcido – Março de 2018

No fim da segunda-feira, olhou para a agenda e sentiu algum alívio. Ainda assim, a exaustão do dia a fez cair em um sono longo.

Na terça feira, Liz desceu a escada do apartamento porque o elevador estava quebrado. Não era um ato especial, o elevador estava assim há semanas, mas o comodismo dos moradores conseguia ser maior que seu sedentarismo. Deu boa tarde ao porteiro e saiu para a calçada, olhando de relance para o senhor que já estava de porre em uma cadeira à beira de um bar. Não é nem duas da tarde, pensou.

Caminhou por duas quadras, tentando afastar o pensamento de voltar, puxar um lugar à mesa do senhor, e beber até ficar pior que ele.

Começou a mascar um chiclete, caminhou. Parou de súbito por causa do sinal de trânsito e tentou se acalmar. Tinham lhe prometido que o próximo paciente seria muito complicado, e ela era o tipo de profissional que criava um vínculo emocional forte com seus clientes. Um paciente com problemas graves fazia sua ansiedade dançar nas bordas de seu crânio. Estava tão focada em seus pensamentos que só ouviu chamarem seu nome da terceira vez.

— Cacete, Liz, quanto tempo!

Em um espasmo e dilatar de pupilas, se torceu para o lado e, atravessando do outro lado da rua, viu Roger, um ex colega do ensino médio. Esses eram os piores, traziam não só aparências ao mesmo tempo perturbadoramente familiares e modificadas, como também memórias de uma época que poderia pagar alguém para deletar de seu cérebro.

— O-olá, Roger…

— Você não apareceu mais nas reuniões do terceirão, o que houve? Tem medo de acontecer aquilo de novo?

— Aquilo o que?

Ela sabia bem do que ele estava falando, e o cinismo não era a sua característica mais forte.

— Aquilo que você e a Roberta fizeram. Olha, fiquei surpreso com você, eu realmente não pensava que… Bom, e a sala ficou toda bagunçada, que cachaça foi essa hein!

— Hã, eu acho que minha memória não tá muito boa.

— Como não? Não lembra? Derrubaram as garrafas e tudo. O tapete do Caio ficou vermelho igual às cortinas do seu consultório.

— Eu devo ter bebido demais, não sei. Olha, eu tenho um atendimento marcado e to quase atrasada, foi mal mesmo, Roger.

— Ok, não quis atrapalhar, mas bom te ver. Por coincidência vamos ter outro encontro semana que vem, vê se aparece. A Roberta foi convidada, se isso te convencer. Vou adorar ver a bagunça que vocês vão fazer dessa vez.

— Hã… Er, eu… Estou com muitos compromissos, mas vou ver se posso ir. Tenho que ir, tchau.

Babaca

Andou alguns metros, entrou no prédio. Deu boa tarde ao porteiro e chamou o elevador.

Vigésimo primeiro andar; andar, andar, até chegar na porta do consultório. Era um corredor longo. Antes de entrar quase deu um encontrão quando saiu repentinamente de seu escritório um colega que ficava na sala ao lado da sua no corredor.

— Liz, tudo bem? Vi você pela câmera e queria te avisar que o seu paciente já chegou. Eu sabia que ele viria porque você me contou e… E disse pra ele entrar.

— Ah, está certo. Obrigada, Ian.

— Sem problema. Preciso fazer umas procurações, e o desgraçado quer isso até as cinco. Você parece pálida, está tudo certo?

— Sim, relaxa. Quando eu aparecer aqui feliz da vida e radiante, aí você pode se preocupar.

Um silêncio breve. Ian estava abrindo a boca, prestes a balbuciar alguma frase pronta reconfortante, mas ela achou que esse papel não era seu.

— Desculpa, eu realmente estou estressada demais, e… Merda, cara. Se você tem problemas, vai ao psicólogo e fala sobre eles. Mas e se você é o psicólogo?

Ian olhou para ela por um momento e abriu os braços. O gesto não foi percebido até alguns momentos depois, dado que a cabeça de Liz estava abaixada, olhando para o rodapé da parede que se encontrava à base da porta, meio que, ao mesmo tempo, devaneando e refletindo sobre o que acabou de dizer. Quando voltou a si, concedeu ao abraço.

Ela era um pouco mais baixa que ele, só era perceptível quando ambos estavam bem próximos. Os braços dele encontraram-se em suas costas, o esquerdo sobre o direito, na altura entre peito e a barriga, com os dedos das mãos levemente espalhados. Os dela se separaram, o esquerdo quase tocando seu ombro, o direito perto do pescoço, roçando de leve os cabelos crespos de Ian durante o movimento de aproximação. Os pés de ambos bem juntos, revestidos pela vulnerável camada de poliéster de seus calçados.

Ficaram ali durante poucos segundos, até que o abraço pareceu se apertar. De início atingiu um limiar até que confortável, como quando se configura o chuveiro na temperatura certa, em que sente-se que um décimo de grau a mais ou a menos seria longe demais do ideal. No entanto, o aperto continuou, e para piorar ela se viu incapaz de falar ou se mexer, sem poder protestar ou se rebelar. Mas sentia que não era Ian apertando-a.

Em pouco tempo parou e, instantaneamente, o abraço se dissipou como qualquer outro. Liz não se moveu bruscamente, mas ao se afastar Ian percebeu seus olhos esbugalhados.

— O que aconteceu? Olha, sabe que somos amigos, certo? Eu prometi não dar em cima de você mais nem nada ass-

— Não Ian, obrigada, é só que eu deveria ir, não posso deixar o paciente esperando.

Quase que em um pulo, voltou a andar em direção à porta. Enquanto Ian a fitava com um olhar que só conseguia imaginar ser de melancolia, atravessou para a sala de espera, depois para a do consultório em si, onde o paciente estava, em uma posição bizarra, em cima do divã.

— Oi, hã, eu sou… Eu sou a Liz, e sou sua Psicóloga, hã… Oque você está fazendo?

Ele estava deitado, o que a princípio seria de se esperar, mas estava espalhado, como que imitando uma estrela do mar, porém os braços e pernas estavam dobrados, como se seu corpo todo fosse a garra de um animal gigante tentando pulverizar o divã.

— Ah, olá doutora. Às vezes me esqueço que preciso falar. Como assim, “o que estou fazendo”?

— Você está, ah, deixa pra lá — Liz sempre priorizava deixar os pacientes à vontade. Uma referência aos seus comportamentos estranhos, por mais absurdos que fossem, não era muito benéfica, especialmente tão cedo. Olhou para ele, tentando se mostrar simpática. — Bom… Joshua, voc —

— Josh, para os amigos. Vamos ser amigos, espero. Ah, vamos ser bem próximos.

— Claro, hã, Josh. Bom, vamos começar nos apresentando. Eu sou —

— Eu sei o que você é doutora. Ou pelo menos acho que sei. De qualquer forma me parece um pouco de perda de tempo, de um jeito ou de outro. Desculpe, mas não vou me apresentar, ah não, clogo verá que isso economizou o tempo de ambos. Nosso tempo, ah… Nosso tempo. É o mesmo tempo, é sim.

Ele não se desprende dessa posição nem para falar. A boca de Josh mal se movia, mas conseguia ouvi-lo perfeitamente.

— Bem Josh, entendo que não ache necessário mas… Se não por informação, que seja para nos acostumarmos um com o outro. Assim vou poder ajuda-lo.

— Acho que pode ser, e até já estou começando a confiar em você. Espero que te ajude. Aliás, me ajude. Nos ajude.

— Certo, er… Eu vou começar.

Liz contou um pouco de si. Do doutorado que fazia à noite após suas consultas, das suas ocupações no tempo livre além de ser uma excelente pianista, até um pouco de sua família. Contou que seu avô Phil se sentia mal dos pulmões e, nesse momento, viu o rosto de Josh se contorcer um pouco, mas seguiu adiante. Falou e falou, devaneio atrás de devaneio, enquanto seu paciente, que remetia a unhas gigantes cerradas, ouvia com toda a devida atenção. Então, disse:

— Desculpe, acho que me distraí um pouco. — Liz não se importava muito com os horários. Suas consultas muitas vezes duravam mais que o tempo acordado se fosse ajudar seus pacientes. — Sua vez, Josh.

— Certo, doutora. A verdade é que eu não gosto muito de falar de mim. Me faz sentir que eu não sei nada sobre quem eu sou. Mas, ainda assim, ultimamente me parece que eu levaria uma semana inteira, talvez meses se eu fosse falar o mínimo sobre mim.

— Me desculpe, pode tentar explicar o que isso quer dizer?

— Acho que não consigo, mas você deve descobrir alguma hora.

Antes de tentar convence-lo de novo a se abrir, seu celular tocou. Agora não, vai quebrar o ritmo da conversa. Se virou um pouco de lado como que para esconder o telefone. Claramente um gesto inútil dado que o aparelho tinha alguma música do Pearl Jam como toque e estava no volume máximo. Viu quem era ao cancelar a chamada, e sua ansiedade foi parar no vigésimo segundo andar, quase dava para ouvir o vizinho de cima reclamando aos gritos de uma poça escura de pensamentos negativos encharcando seu chão.

— Não vai atender? Eu não me importo, pode ser importante. Roberta, hã? Pela sua reação, parece uma situação complicada.

Liz gelou. Pediu desculpas e se retirou da sala, tentando agir casualmente, porém com plena certeza de que não conseguiria, tendo em conta toda a situação. Merda, como ele soube quem era? Não faz o mínimo sentido. Tomou um copo d’água e enviou uma mensagem para Roberta, retornando para a sala com o paciente em seguida.

— Desculpe, Josh, mas…

— Eu entendo, de verdade. É perfeitamente compreensível. Nos vemos amanhã, eu espero?

Ele continuava na mesma exata posição. Não conseguia reparar em um músculo sequer que tenha se movido.

— Ah, eu… Ah, claro, sim, podemos deixar marcado. Desculpe ter que cancelar a consulta de hoje

Liz o observou enquanto se levantava, um membro de cada vez se retraindo de forma mecânica, até que o viu sentado com as pernas próximas uma da outra e os braços esticados, com as mãos paralelas em um eixo que atravessava na horizontal do corpo pressionando levemente o estofado do divã. Josh se levantou lentamente e andou a passos calmos até a porta, se despedindo da doutora sem virar o rosto e saindo do consultório.

Ela permaneceu sentada por algum tempo, olhando para o chão do consultório, dessa vez sem pensar em nada. Então se dirigiu para a saída, trancou a porta e foi embora, com a mente vazia e estranha.

Até que no caminho lhe ocorreu que nunca compartilhou em lugar algum imagens do seu consultório, nem sequer o mostrou a algum conhecido que não fosse Ian. Muito menos a Roger.

Andou pelo resto do caminho com a expressão mais perturbada possível. Chegou ao apartamento e ficou se perguntando o que deveria fazer, então tomou uma decisão muito humana, que era a tentar se distrair de alguma forma e deixar os acontecimentos se dissolverem no seu cérebro. Só então percebeu que deveria ter ligado para cancelar a última consulta e informar ao seu orientador que não compareceria à universidade, mas decidiu inventar uma desculpa outra hora, apesar de como se importava com seus clientes e seu professor.

Decidiu assistir a um filme, um dos indicados ao Oscar do ano retrasado que estava em sua lista quilométrica de filmes para ver. Escolheu o mais tranquilo e interessante. Fez pipoca e não economizou na manteiga, apesar de saber que teria que lidar com a azia depois, o que parecia ser o menor de seus problemas. Jantou alguma coisa e foi ver vídeos no Youtube. Encontrou um particularmente interessante, mas não chegou consciente à metade da sua meia hora de duração.

Estava bem relaxada quando caiu no sono. Apesar disso, seus sonhos foram intranquilos.

Estava em uma sala que pensava ser seu consultório, porém com paredes de vidro. A sala flutuava no espaço, em volta só havia formas cinzentas em tons semelhantes, nada dos corredores de seu prédio ou dos elevadores antigos. Nada de Ian.

Das paredes de vidro começaram a brotar formas sólidas, semelhantes a madeira esburacada e suja. A maior parte ainda era vidro tão transparente quanto os sonhos podem mostrar, mas as formas cinzas ao fundo passaram a se transformar em todo tipo de coisas materiais, construções, como se surgissem a partir das paredes onde o vidro as havia sido substituído. Como se a sala crescesse para dentro e para fora. Rapidamente a visão panorâmica ficou bloqueada por lâmpadas, alto falantes, mesas de eucalipto, caixas de papelão, geladeiras, vibradores, panelas, carros, latas de refrigerante, pares de sapatos. Os objetos iam surgindo, cada vez mais e mais, mesmerizando seu olhar. Quando se deu por si, viu Josh na sala, na mesma posição de antes, mas o divã era ela.

Acordou no meio da noite de quarta-feira com as feições de quem foi derrotado em uma luta corpo a corpo, viu uma mensagem em seu celular. Era algum spam. Deitou no sofá e ligou a TV para escutar alguma coisa que não os seus pensamentos e caiu no sono de novo.

Depois de acordar, já no fim da manhã, enviou uma mensagem a Ian para almoçarem juntos. Ele não chegou a responder antes que ela saísse de casa, mas imaginou que estaria no mesmo restaurante de sempre. Encontrou com ele e sentaram na segunda mesa mais ao fundo. Liz começou a falar como alguém que despeja um enorme balde d’água com toda força que tem e acaba errando o alvo.

— Pera, como é que é? Ele estava se contorcendo?

— Se contorcendo não, Ian. Poucas vezes vi alguém se sentir tão confortável em um divã. Ele fazia parecer como se fosse a posição mais natural possível.

— Você disse que é algo entre a garota do Exorcista e o homem aranha, é isso?

Ele soltou um risinho.

— Ian, isso é sério. Eu to apavorada de verdade. Parece algum amigo do Roger querendo mexer com a minha cabeça. Eu te disse, o Roger contou das cortinas e não tinha maneira alguma dele saber, elas ficam dentro do consultório, longe da vista da janela.

— Liz, eu disse para ele entrar instantes antes de você chegar. Acho muito difícil que tenha tido tempo de armar tudo isso.

— Eu já não sei mais, cara… A primeira impressão não foi muito boa. Como ele conseguiu o meu contato, aliás? — Como eu sou idiota, nem mesmo perguntei isso .

— Ele disse que foi pelo Facebook está na sua página.

— Ian…

— O que foi?

— O telefone da página é meu celular, mas lembro de ter agendado ele pelo fixo, que só dou para pacientes que eu já conheço, gosto de evitar que a linha fique incomodando durante as consultas.

— Então ele conseguiu de algum conhecido seu, vai saber… Olha, você devia pelo menos fazer mais consultas com ele, talvez mais uma, e tentar se manter tranquila. Quer um calmante?

— Por favor.

Ian buscou na mochila, no bolso pequeno da parte da frente, e pegou uma pequena cartela. Se ergueu para olha-la nos olhos e mostrar um rosto calmo e amigável. Estendeu a mão e ela fez o mesmo. As mãos se demoraram uma na outra até que Liz puxou a sua, de forma um pouco desajeitada. A situação a fez lembrar de outra coisa.

— Roberta me ligou ontem, no meio da consulta.

— Roberta… — Fez uma expressão de esquecimento — A-ah, sim, lembro. A que você…

— É, ela.

— E sobre o que queria falar? — Ian estava visivelmente desconfortável.

— Não sei, não quis interromper a consulta, então mandei uma mensagem assim que terminei, mas ela não me respondeu. Bom, assim que eu voltei para o consultório eu cancelei a consulta de qualquer jeito, então eu devia ter atendido naquela hora.

— Entendi. E qual é o lance entre vocês duas?

— Ian, isso foi meio indelicado. A gente não… Não temos “lance” nenhum. Quer dizer, ainda. Er, não temos nos falado muito. — O rosto de Ian se mostrou levemente triste, mas o suficiente para parecer como algo desfigurado.

— Certo, mas é importante que conversem a respeito dos seus sentimentos — Ele parecia estar se forçando a falar, como quem tem medo de ir para o inferno e coloca um sorriso rígido na cara.

— Eu sei disso. Vou ligar para ela de novo mais tarde.

Depois de terminarem o almoço, Liz caminhou até uma praça próxima e sentou em um banco. Apesar do calor da tarde, sentia-se mais confortável do que provavelmente ficaria esperando no consultório. Vinte minutos sentindo o vento quente no corpo foram o bastante, e então caminhou até o prédio do consultório.

Dessa vez sem conhecidos infelizes ou pacientes esperando de tocaia, o trajeto foi tranquilo como todas as tardes de verão deveriam ser. Subiu pelo elevador e esperou na sala por dez minutos até sua primeira paciente de quarta-feira, que era o dia da semana mais movimentado. Se tratava de uma senhora na casa dos setenta anos chamada Margaret. A idosa era muito rica mas tinha sérios problemas emocionais por não saber lidar com a morte da maioria dos parentes e amigos. O tempo não perdoa ninguém. Chegar são ao fim da vida deve ter uma sensação amarga. Margaret estava entre os seus pacientes favoritos. Adorava a companhia de Liz e o sentimento era recíproco. Sempre havia alguma técnica para tentar expor seus problemas de maneira construtiva de forma a amenizar a dor.

Teve mais dois clientes em seguida, um casal. Karen e Ivan estavam tendo problemas na relação e consultavam Liz, na maior parte das vezes para se queixar de como a filha é malcriada ou como os pais um do outro são insuportáveis. Liz se sentia bem por estar solteira toda vez que realizava essas consultas, apesar de que cada sorriso que um jogava ao outro eventualmente era como uma agulha perfurando sua garganta.

Por fim havia Jean, um jovem empresário com distúrbios de ansiedade, um pouco visíveis em suas olheiras e postura desajeitada. O apelido da condição não era mal do século à toa, Liz sabia muito bem disso. Ela ensinava as maneiras mais comuns de tratar os apertos no coração e se livrar dos pensamentos negativos, mas depois de um tempo se tornou desacreditada de algumas delas, e passou a ensinar só por desencargo de consciência. Ainda assim não tinha reclamações de Jean e foi uma consulta dentro do comum em sua maior parte.

Então chegou a hora de Josh, e sua pontualidade era impecável. Liz ainda estava falando a Jean sobre uma técnica de respiração quando notou que o seu paciente peculiar havia chegado. Terminou de falar o que queria e se despediu de Jean, que saiu do consultório, dando boa tarde a Josh e seguiu seu rumo.

Josh entrou sem dizer nada. Liz tentou cumprimenta-lo.

— Boa tarde, Jo— Foi interrompida.

Nesse momento ele começava a engolir o divã, e enquanto isso falava.

— Liz, já nos conhecemos muito para dar cumprimentos.

Sentou e abriu os braços.

— Esses maneirismos da sociedade me cansam. De que adianta repetir a mesma coisa sempre?

Estendeu as pernas, contraiu-as.

— Sabemos o que os outros pensam, por que eles insistem em dizer?

Esticou o pescoço, olhando para o teto. Iniciava seu banho de Sol, mas sem o Sol. Não, era como se ele quisesse engolir o Sol. Liz tentou dizer.

— Eu não entendo, Josh. Se você sabe o que eu tenho para dizer, por que me procura?

— Porque eu não tenho certeza de que sei, mas me parece que sim, e a senhora é a maneira perfeita de eu descobrir. Não se preocupe, em breve. Breve.

Liz contemplou aquela figura desconcertante. Os olhos vidrados, que podia jurar não ter visto piscar desde que Josh entrou no consultório, mas que ainda assim pareciam suficientemente relaxados. Hoje sua posição estava ligeiramente diferente, as pernas se dobravam mais, os pé tocavam a parte debaixo do divã, os braços estavam levemente girados em torno de si mesmos, a cabeça mais inclinada para trás. Mas o que mais chamou sua atenção eram os sulcos que seu corpo formava no estofado do divã. Era como se Josh tivesse várias vezes o seu próprio peso.

— Josh, eu vou ser franca com você.

— Ah, por favor, sim.

— Não nos comunicarmos direito é um problema sério, ou pelo menos é o que eu diria para qualquer paciente. Você parece muito peculiar, sem dúvidas, mas fora isso mostra ter extrema paz de espírito. — Não é esse o termo. É mais uma tranquilidade doentia. — Não consigo compreender o que quer de mim.

— O seu tempo, doutora. Quero você. Aliás, não é uma questão de desejo, não é uma opção, você é minha.

Desgraçado pervertido

— O-o que quer dizer com isso? Olha Josh, não estou gostando dessa conversa.

— Não importa. Mais uns dias. Vai ver. As coisas parecem estar caminhando como esperado.

Liz levantou-se, escorregando a cadeira para trás. No processo percebeu uma alteração na expressão facial de Josh. Ele parece estar sentindo prazer. Continuou a ignorar a situação, virou-se e foi à estante. Esticou um braço para pegar um livro, quando Josh falou.

— Como vai a Roberta?

Liz se espantou e deixou cair o livro, a capa verde-escura, como se fosse de biblioteca, a capa com os dizeres “Não cooperatividade em tratamentos psicológicos” e as páginas se esvoaçando juntas, presas entre si e passando os capítulos como em desenho animado que se faz nas orelhas de cadernos do ensino fundamental. Se conseguisse enxergar em câmera lenta poderia ter visto o capítulo desejado, “aparente estabilidade emocional”, ser folheado inteiro na sua frente enquanto o livro caía.

O tomo atingiu o chão como um trovão. Josh pulou, projetando os membros para cima, como se flutuasse, enquanto se virava na direção de Liz, com os olhos mirando o livro de início e se apertando em seguida, os dentes a princípio cerrados e em seguida afastados por um som gutural de dor. Josh caiu no chão. A doutora correu para ele em tentativa de assistência, mas o paciente se deteve a ignora-la e se esgueirar para o livro, e então puxou e se agarrou a ele, como quem abraça uma perna machucada depois de dar um chute em algo duro.

Liz tentou convence-lo a sair daquela configuração, largado no chão em posição fetal com os braços cruzados sobre o livro. Sem saber o que fazer, Liz se sentou e apenas retomou à conversa de onde havia parado.

— Não sei de fato como está

— Do que está falando ?— Josh respondeu, à sua habitual maneira de não mover qualquer músculo que não fosse necessário à fala enquanto está parado.

Liz ficou confusa. Sempre diz saber o que quero dizer, como não sabe agora?

— D-da Roberta. Não nos falamos, na verdade.

Aquilo pareceu aliviar sua expressão um pouco, mas em seguida se sucedeu um olhar triste. Liz não saberia dizer, já que da cadeira não via seus olhos

— É uma pena, não consigo saber como ela está então.

Ele é louco? Do que importa a ele?

Josh ficou alguns minutos parado, quase tão desconcertado quanto Liz estava. Ele, de alguma forma, pelo livro caído ao chão. Ela, por realmente não saber o que estava acontecendo.

O tempo da consulta terminou. Aquele momento observando a criatura no chão sem norte deixou Liz com mais pena que raiva e ela conseguiu dizer palavras que achava que eram mais do que ele merecia.

— Josh, você é uma incógnita, e de alguma forma parece que me machuca e eu não sei como lidar com suas atitudes. Mas, por tudo que é sagrado, eu seria uma vergonha se não tentasse. Quero que me responda uma coisa. Você está sendo sincero? Quero dizer, agindo de forma natural, por conta própria? — Não havia afastado totalmente a ideia de que era apenas uma peça que ele estava pregando, que estava com Roger e sabe-se lá quem mais da turma do ensino médio.

— Não se engane — Sua voz saía em ritmos pausados, metódicos. — Minha intenção não é lhe fazer mal, porque eu não ia gostar disso. Mas dependendo do seu ponto de vista sobre as coisas, é o que vai acontecer.

Josh levantou-se, tropeçando de forma estranha, e colocou o livro no lugar exato onde estava. A prateleira era enorme e cheia de livros diferentes com vários espaços entre eles, e o paciente encaixou o que segurava no devido lugar, para espanto de Liz. Caminhou para a saída e disse, apenas:

— Até amanhã.

Liz saiu do consultório e pegou um ônibus até a universidade. Apoiada com a cabeça na janela e ouvindo Pearl Jam, tentou esquecer a conversa de Josh, mas era inevitável. Aquilo foi uma ameaça? Ele me faria mal mesmo? Eu devia só dispensar ele. Decidiu que iria simplesmente recomendar que consultasse outro pisicólogo.

Aproveitou o tempo de viagem e ligou para Roberta. Caixa postal. Lembrou que era o horário em que ela trabalhava na cafeteria. Ela não havia respondido sua mensagem do dia anterior e se perguntou o que estava errado. Tudo, parece.

Chegou ao campus da universidade. Algo parecia fora do lugar. Como olhar uma foto, sentir uma lembrança boa, mas no fundo tem algo incomodando. Como sentar em uma poltrona familiar e sentir um desconforto inexplicável.

Avançou pelos prédios. Primeiro o de Letras, então os dois prédios gêmeos de engenharia. Alunos do turno integral caminhando de um lado para o outro com mochilas e bolsas penduradas aos ombros, conversas de pessoas esperançosas e frustradas. Liz se sentia parte desse último grupo nos tempos recentes. Se distraiu na enumeração dos prédios, mas não importava, havia chegado no de ciências biológicas. Dois andares de escada e havia chegado ao laboratório.

O professor Andrew não havia chegado ainda, e Liz se deu a liberdade de usar o computador para fazer qualquer coisa improdutiva. Abriu a caixa de e-mail e percebeu que não havia avisado que iria faltar no dia anterior. Tinha uma apresentação importante do professor Sergio, merda. A súbita vergonha fez com que rapidamente abrisse novamente os dois artigos que estava escrevendo e revisar o que havia feito até então. Um era sobre padrões comportamentais de jovens em contato constante com tecnologias antigas, enquanto o outro falava a respeito de frequência e intensidade de relacionamentos interpessoais nas gerações mais recentes. Nenhum sobre pacientes com ar de grandeza e não cooperativos.

Depois de duas horas revisando os artigos, viu Andrew entrar no laboratório, mas fingiu não perceber e continuou fazendo anotações. Esse paragrafo tá escrito igual a minha cara, melhor refazer inteiro. O professor se aproximou.

— Olá, Liz.

— Hm, ah, oi, professor. Estou fazendo uma revisão mais detalhada.

— Isso é importante, sua apresentação é semana que vem, certo? — Ele nem sequer comentou sobre minha ausência ontem.

— Sim, o dos jovens e tecnologias defasadas, sim.

— Ótimo. Tem tido alguma dificuldade?

— Bom, alguns parágrafos estão uma bagunça, pra ser sincera, mas o material tá bem sólido e acho que consigo reestruturar a tempo.

— Certo, me envie as alterações que vou dar uma olhada quando puder.

— Claro, mando agora mesmo.

Liz não conseguia se conformar com o fato de que ele simplesmente não ligou para o fato de que havia faltado em um dia importante. Realmente não era a cara de Andrew deixar passar um acontecimento desses. Carla, uma outra aluna orientada por ele, faltou um seminário uma vez para levar um cachorro que foi baleado ao veterinário e nunca o tinha visto tão puto da vida. Claro, não quis investigar o motivo do bom humor, ou da simples ignorância, com medo de arrumar confusão. Continuou empenhada em sua tarefa.

Tarde da noite, decidiu que já estava dando voltas naquela revisão e que não encontraria mais erros no momento. Antes de sair do laboratório, viu uma mensagem de Roberta e enviou outra em resposta, contando o que aconteceu nos últimos dois dias. Apesar do contato com Roberta, não conseguia parar de pensar em Joshua. Do lado de fora, começou a se sentir ansiosa e confusa, notou que o ambiente estava estranho e mudado enquanto andava.

Não conseguia identificar os prédios. Eram todos torres cinzas, ora afastadas, ora próximas, ora parecendo ser uma só, de maneira irreconhecível. Caminhou e caminhou. Nem alunos nem postes de luz à vista, mas o problema com certeza não era iluminação, já que via tudo com clareza. As torres pareceram se erguer mais e mais altas, uma infinidade delas. Seus tons cinzas foram enegrecendo, depois voltando ao cinza, depois enegrecendo novamente, se misturando à tons púrpuras. Caminhou mais ainda, e as torres começaram a subir. Estarrecida, Liz olhou para o céu, iluminado por mais estrelas que achava possível se ver. A lua brilhava branca e perturbadora, e viu as torres se erguendo mais alto que ela. Viu as torres se erguendo por trás dela. Viu-as atravessando, cortando a lua, e viu a mesma se partir em pedaços que se separaram. Mais torres nasceram de todos os cantos. Das calçadas e dos bueiros, das próprias torres e dos pedaços da lua, dominando tudo. Sentiu como se tivesse sido empalada por meia dúzia delas, erguendo-a ao céu, mas não houve dor, apenas uma sensação de loucura.

Sentiu que as torres que a atravessaram começaram a crescer dentro de si. Começou a sentir seus membros se separarem do corpo, e o corpo se rasgar.

Na manhã de quinta feira, Roberta chutou seu edredom e pensou, por um momento, ter acertado alguém, mas ainda se manteve deitada, de olhos semicerrados. Impossível, pensou. Levantou num susto repentino e foi se aprontar. Estava liberada do serviço nesse dia. Pegou sua arma e saiu do apartamento.

Desceu, ignorou o porteiro, que havia dado bom dia, e seguiu seu caminho. Atravessou duas quadras, parou em uma padaria e comprou um salgado. A televisão exibia uma reportagem de última hora sobre bairros próximos onde ocorreram diversos desaparecimentos, e outros ainda em que não se via pessoas saindo de suas casas. Terminou sua refeição e seguiu caminho.

Mais quatro quadras, uma dobrada à esquerda na esquina vazia, mais duas quadras. Havia chegado. Entrou no prédio, acrescentando mais um à lista de porteiros ignorados do dia, apertou o botão do vigésimo primeiro andar.

Percorreu o corredor e bateu à porta. Mais uma, e outra vez, e nada. A que se abriu era a da sala vizinha.

— Olá, te ouvi batendo na porta, o que quer?

— Quero falar com a Elizabeth.

— Ah, sim. Somos amigos, mas não vi ela hoje. Ela normalmente atende mais tarde. É alguma paciente?

— Não, só uma velha amiga.

— Pera, você é a… — Antes de terminar a frase, viu a moça dar meia volta e entrar no elevador.

Roberta andou mais duas quadras e chegou a seu novo destino. Outro porteiro, estava ficando boa nisso. Subiu até o andar de que se lembrava muito bem, viu a porta aberta e sentiu subir um arrepio gelado na espinha.

O apartamento parecia revirado. Não, ele parecia retorcido, derretido. Como um tornado que parou no tempo, uma tempestade congelada. E Liz deitada no chão, com os membros abertos sem conformidade. Roberta correu e a pegou nos braços. Seus olhos estavam abertos, mas sem expressão. Seu pulso estava constante, bem como sua respiração. Uma olhada mais atenciosa e viu suas mãos com os dedos separados, em garra, presos a objetos do apartamento.

Liz retomou a consciência e suas garras se desprenderam, seus membros se esticaram e o rosto se relaxou. Roberta passou uma das mãos por sua cintura e outra por trás de seus cabelos, e viu os olhos de Liz, antes esbugalhados, se fecharem um pouco, como quem é abatido por boas lembranças. Puxou-a para perto e a abraçou. Sentiu suas mãos tremendo e subindo suas costas, seus braços dando o mais reconfortante dos apertos, suas lágrimas se derramarem em seu pescoço.

Por alguma horas, ficaram sem conversar, uma deitada . Liz ainda estava visivelmente afetada, e Roberta não sabia como proceder, a não ser lhe fazer companhia. O relaxamento no olhar da psicóloga quando a fitava indicava que era o suficiente. Após algum tempo, Liz levantou.

— Eu vou acabar com isso.

— Vamos, você quer dizer.

— Você não tem que fazer isso.

— Nem você, Liz, mas se fizer eu vou estar lá com você.

— Tem certeza? — Roberta olhou para a televisão, até então ignorada pelas duas. A reportagem era urgente, falando de acontecimentos estranhos e grotescos na região. As descrições batiam com coisas que Liz havia presenciado. Roberta viu isso em seu olhar.

— Tanta quanto alguém pode ter sobre qualquer coisa. — Liz soltou um riso abafado, melancólico e breve.

— Você não sabe o quanto tá errada, mas não por muito tempo. Preciso fazer uma coisa antes, e então esperamos.

Liz levantou, andou até o seu celular e ligou para Ian, que esperava estar em seu escritório ainda. Conversou por alguns minutos e se despediu. Roberta comentou:

— É o rapaz que eu conheci hoje? Ele parece legal.

— Vamos ver se ele é realmente tão legal, já que é nossa única chance.

Ligou para Joshua.

— Eu já s-

— Sim, eu sei que você sabe.

— Você excedeu minhas expectativas. — Liz desligou.

Fizeram um jantar e tentaram dormir, mas não conseguiram. Não é a coisa mais importante nesse momento mesmo. Em vez disso, conversaram, tentando recuperar o contato quase inexistente nos últimos tempos. Falaram sobre seus passatempos, sobre a vida de Liz e do emprego de Roberta como policial, e como ela havia passado por problemas estranhos no expediente dos dias anteriores. As histórias começaram a fazer sentido e bateram com os relatos uma da outra. Tarde da madrugada, adormeceram.

Acordaram na tarde de sexta, faltando uma hora para a última consulta. Comeram alguma coisa e conversaram, tentando afastar a tensão. Saíram pela porta do apartamento, e se viram dentro do consultório, com Josh no divã. Liz não conseguia discernir onde Josh terminava e o divã começava, e Roberta parecia não entender o que estava diante de si.

— Espero que tenha entendido, doutora.

— Sim, no fim das contas. Desculpe, Josh.

As duas começaram a se aproximar involuntariamente de Josh, como se a sala encolhesse, mas seu tamanho ainda era fisicamente o mesmo. O chão prendeu seus pés, parecendo crescer por suas pernas. Roberta sacou a arma e atirou na figura que estava a sua frente, a sala se distorcendo e parecendo vibrar. Todas as balas acertaram o alvo, mas nenhuma indicação mostrava que havia feito diferença. A forma que representava Josh pareceu decepcionada.

— Espero que saiba que a essa altura não faz diferença.

— Me desculpe por não poder te tratar, Josh. — Liz disse, cheia de tristeza.

E então pararam de se mover, com mais da metade das pernas enterradas. Josh soltou gritos. Um atrás do outro, mais e mais altos, como explosões. A agonia era assustadora. Roberta caiu no chão e Liz andou, se movendo pelo chão derretido, em direção à forma, que estava começando a se parecer com um ser humano. Quando Josh sentiu que uma fileira inteira de livros da prateleira havia sumido, já era tarde demais. Liz esticou as mãos e o pescoço de uma pessoa se formou entre elas. Josh se contorceu enquanto as lágrimas da doutora rastejavam pelos seus braços, cada vez mais fracos, que tentavam libertá-lo. A sala voltou a encolher, mais rápido, no ritmo de seu próprio desespero, até que parou. Josh havia lançado um último olhar a Liz. Seus olhos eram escuros e púrpuros, e pareciam querer fitar a existência inteira.