Abriu um dos olhos e tentou abrir o outro. Luzes borradas circundavam o seu campo de visão, vez ou outra sendo cortadas por manchas escuras que se aproximavam e se afastavam. Agora, com ambos os olhos abertos, começava a tentar dar sentido às formas e luzes. Os ouvidos explodiam em sons esquisitos, mas o que via não batia com esses barulhos, e o que via agora era nítido: duas pessoas olhando em sua direção e tentando se comunicar.

— Acho que está escutando agora.

— Não sei bem. Ei! Alô!

Queria dizer que entendia o que estavam falando, mas sua boca tremia e suas cordas vocais não vibravam da maneira que queria. Felizmente, uma das pessoas acabou com sua agonia.

— Ei, balance a cabeça se estiver ouvindo a gente.

Ao que quis tentar atender, mas seu pescoço estava rígido, de forma que não obteve sucesso. As pessoas perceberam seu esforço, no entanto.

— Acho que não consegue movimentar o pescoço ainda. Seus olhos vão servir: Pisque duas vezes se estiver nos entendendo.

— É, isso é mais fácil.

E, de fato, era.

— Ótimo. Você deve ter notado que estamos em um hospital. Eu sou a Doutora Luciana e esta é a Enfermeira Carla. Pisca de novo se você entendeu até agora.

Ao que, então, obedeceu.

— Certo, Doutora. Vou deixar vocês a sós. Me chame se precisar.

— Tudo bem, Carlinha. Bom, voltando aqui. Agora eu vou começar a falar e você pode piscar rápido se não estiver entendendo. Então, você pisca duas vezes quando quiser dizer que entendeu, e começa a piscar algumas vezes rápido se quiser que eu pare de falar, ok?

Piscou duas vezes, novamente.

— Certo. Peço que mantenha a calma, porque pode ser um pouco chocante o que vou dizer. Você esteve em um coma por, aproximadamente, um ano e dois meses. Não sabemos o que causou ele. Na verdade, você parece perfeitamente saudável desde o momento em que chegou aqui. O secretário nos informou que te encontraram em uma calçada não muito longe daqui, inconsciente, mas sem nenhum arranhão.

Sua cabeça doía. Percebeu dois fatos peculiares: nada do que foi dito pela doutora parecia preocupante e, também, que não fazia ideia de quem era. Luciana demonstrou que tinham isso em comum.

— O mais estranho é que não sabemos quem você é. Não tinha documentos, ninguém próximo do local te conhecia. Tentamos uma identificação com a polícia, mas não deu em nada. Você se lembra de quem é?

Nesse momento estava em distração, olhando para a TV. Um repórter bem arrumado dava relatos sobre as ondas de calor que estavam ocorrendo nos últimos meses. O programa cortou para um pesquisador falando sobre como uma geleira importante corria o risco de romper, e então passou para uma moradora de uma região suburbana próxima reclamando sobre a conta de luz.

— Desculpe, me distraí com a televisão.

— Não tem problema, é normal nessa situação se distrair facilm — Er… Você falou?

Um riso abafado passou por seus lábios.

— Sim, disse que me distraí com o programa.

— Mas não era esperado que você falasse tão rápido.

— Não sei dizer porque, mas em um momento não conseguia mover quase nenhum músculo e, agora, me sinto bem.

Devagar, empurrou seu corpo para cima com os braços. A doutora se encontrava sem palavras. Ficando preocupada, tentou segurar suas costas e sua barriga.

— Você não deveria estar conseguindo se levantar. Com o tempo que está em coma, deveria ter dificuldades de se locomover.

— Eu te disse, estou me sentindo bem.

— De qualquer forma, não é o ideal. Você pode se machucar caso faça muito esforço. Por favor, fica na cama.

— Realmente me sinto bem, não se preocupe.

Notou que tinha uma agulha presa em seu braço alguns . Com um leve puxão, os arrancou. Então, afastou gentilmente a Doutora com uma de suas mãos e, com a outra, puxou a cama para trás, se colocando de pé. Avistou a saída e andou em sua direção, os pés descalços se arrastando um pouco e mancando uma ou duas vezes.

— Espera! Pra onde você vai? Volta pra cama, é perigoso!

Ignorou a Doutora e saiu da sala. Pacientes e funcionários do hospital olhavam em sua direção com semblantes curiosos. As mancadas já estavam cessando, seu andar ficando mais ritmado. Placas indicando a saída eram suas guias. As vestes de hospital balançaram quando saiu do prédio e sentiu o vento quente bater em seu corpo. Luciana vinha correndo atrás, junto com a Enfermeira Carla.

— Carlinha, tenho que impedir que fuja. Avise aos outros que saí. Repasse para o Doutor Abelardo meus horários da clínica.

— Ele sempre reclama que você ainda deve várias horas pra ele.

— É, mas fazer o quê. Não posso deixar alguém que acabou de acordar de um coma sair por aí. Ainda mais… sem roupas.

Luciana saiu em sua direção e Carla voltou para dentro do prédio.

— Ei, espera aí!

— Oi, Doutora. Não precisa me seguir.

— Você não devia sair por aí. Não tem nem roupas! Só tem essa camisola que tá presa por um nó.

— Ah, não me importo.

— Bom, se é nudista ou sei lá, não é problema meu. Mas não sei como está seu estado de saúde e não posso deixar que saia daqui.

Já estavam chegando ao estacionamento quando ela se colocou em sua frente com os braços abertos.

— Já chega, não vai passar daqui.

— Por quê?

— Já falei! O seu estado não é normal. Nunca vi alguém acordar de um coma e sair andando por aí.

— Eu assumo a responsabilidade, me sinto muito bem.

— Você nem ao menos me respondeu. Você sabe quem é?

— Não sabia no começo, mas fiquei pensando no que vi na televisão e tenho uma ideia.

— O que quer dizer com isso?

E saiu andando pela calçada.

Seu Joaquim estranhou quando viu uma pessoa entrar em sua padaria com vestes de hospital.

— Por favor, me vê um misto-quente na chapa.

— Desculpa mas… Por que você tá sem roupa?

— Acabei de acordar de um coma no hospital da rua de trás.

O padeiro não queria ter confusão. Tinha medo de que a situação assustasse os clientes mas, devido ao calor, o estabelecimento estava vazio. “Todos devem estar na praia, com um Sol desses”, pensou.

— Beleza, hã… São três e cinquenta, por favor.

— Eu pago! E quero um também, por favor, seu Joaquim.

— Mas o quê…

A Doutora, ainda de jaleco, entra no lugar puxando sua carteira de um dos bolsos da calça e dando uma nota de dez para o padeiro, que estava claramente espantado. Percebendo a situação, tirou seu jaleco e pediu desculpas pela confusão. Sentaram em uma mesinha, esperando os sanduíches ficarem prontos.

— Você não deve estar batendo bem da cabeça. Como acha normal vir aqui nesse estado?

— Estão balançando.

— Como é?

— As árvores lá fora — Acenou com a cabeça em direção a um jardim que podia ver através da janela da padaria e parou por um momento — Estão balançando, bem verdes e cheias.

— Ah… Bom, não reparei. O que tem elas?

— Em que estação estamos?

— Bom, hoje é dia doze de abril, então é outono aqui.

— Não é estranho?

— O que é estranho? Você não tá fazendo sentido!

— Um dos mistos tá pronto! — Gritou o padeiro.

— Vamos pegar os dois juntos!

— As árvores estão verdes demais — Respondeu enfim — É estranho para essa época do ano.

— Por que a preocupação com isso?

— Eu acho importante. Bem, como você está, doutora?

— Eu, hã… Estou bem. Na verdade, morrendo de calor, mas bem.

— Exatamente.

— Saiu o outro misto! Quer algo pra beber? — Esbaforiu o padeiro

— Dois refrescos de caju! Olha, não está dando certo isso aqui. Eu vou buscar nosso lanche e vamos comer. Então, você vai me contar exatamente o que tá acontecendo.

— Tudo bem.

A doutora pegou o trocado dos sanduíches para pagar os refrescos e levou tudo em uma bandeja para a mesa. Pegaram os mistos quentes e começaram a comer.

— Isso está muito bom.

— É, o Seu Joaquim capricha no queijo. Sempre passo aqui nos intervalos entre meus plantões.

— Ainda assim, acho que tem algo faltando.

— Tipo o quê?

— Tem um problema no pão, e eu acho que é o trigo.

— Parece totalmente normal pra mim.

— Não, não, vai por mim. A safra do trigo está comprometida. Esse pode ainda estar aceitável, mas logo o pão vai ficar intragável.

— Não sei o que quer dizer. Enfim, vamos terminar de comer, a gente combinou, né?

Acabaram o lanche e saíram da loja. Enquanto percorriam a calçada, a Doutora retomou o papo.

— E então?

— Luciana, você não percebe que está tudo um pouco diferente? A temperatura, os ventos, o próprio pão que nos vendem?

— Está realmente mais quente, mas isso é, sei lá, aquecimento global — Parou um momento, tirou um pano do bolso e limpou o suor da testa — Mas o que tem a ver? Ah, e o pão estava normal.

— Em breve não vai estar, como eu te falei. E está muito mais quente do que o normal, mesmo com todos os descuidos, poluição e essas coisas. Enfim, meu ponto é que — A conversa foi interrompida por um berro.

— TE ACHEI, FINALMENTE!

Vindo na direção oposta havia uma pessoa bem vestida com um terno e sapatos de couro e, estranhamente, estava imaculada pelo calor, não demonstrando transpirar ou se abater pela temperatura. Em sua mão carregava um pé de cabra.

— Bem que estava me perguntando por onde você andava. Então você andou trabalhando bastante nesse tempo em que estive dormindo.

— Sabia que não tinha morrido na última briga. Felizmente, vi na internet que alguém saiu sem roupa de um hospital acompanhado por uma Médica e foi comer em uma padaria. Chega de palhaçada, isso acaba aqui!

— Você sabe que não é a sua vez, por que está quebrando nosso acordo?

— Não percebe? O clima está mudando. Eu clamo agora o que é meu por direito, é o que todos estão dispostos a aceitar!

A pessoa de terno puxou o pé de cabra para trás e disparou. A doutora esquivou e saiu em busca de ajuda. Sua companhia foi acertada no ombro esquerdo e quase perdeu o equilíbrio. Abaixou-se para tentar pegar o pé de cabra e revidar, mas tomou um soco no rosto logo em seguida. Caindo no chão, usou as mãos para tentar aparar a queda, mas não conseguiu e bateu a cabeça no chão. Por um momento, ouviu um zumbido estridente e sua visão enegreceu, mas não desistiu. Rapidamente recobrou os sentidos, desatou o nó de sua roupa de hospital e arremessou ela um pouco acima do terno que estava vindo em sua direção. Aproveitando o momento, pegou o pé de cabra antes que a pessoa arrumada conseguisse tirar a roupa da cara e golpeou bem em sua testa, com toda a força que encontrou. Sangue estava pingando no terno da pessoa estirada na calçada. Ela estava com a ferramenta cravada no meio do crânio, mas ilesa no resto do corpo. Percebeu que o sangue vinha de sua cabeça, onde havia batido no chão. Devagar, sua visão voltou a ficar turva. A última coisa que viu foi a Doutora voltando com a enfermeira.

A cena seguinte era familiar. Com a cabeça doendo, os olhos abrindo levemente, viu novamente aquelas formas e luzes.

— Minha nossa, acordou! Carlinha, deixa a gente a sós, por favor.

— Tudo bem, Luci — E saiu em seguida

— Mas você só arruma problema!

— Olá — Tocou a cabeça e sentiu que estava enfaixada — Agradeço a ajuda, mas não precisa disso.

— É claro que precisa! Você teve uma concussão ontem na briga.

Removeu a faixa da cabeça. Estava apenas com uma pequena mancha roxa no lugar onde bateu.

— Mas isso é… É incrível. Ontem mesmo estava com um rasgo enorme na têmpora. Mesmo com os pontos levaria vários dias pra sarar.

— Eu estou bem, Doutora.

— Tem certeza?

Olhou através da janela do seu quarto de hospital. Viu as árvores do pátio e reparou, solenemente, que suas folhas estavam amareladas e caindo.

— Absoluta.


Fiz esse conto por conta de uma atividade com um grupo de amigos. A ideia era fazer um conto sobre um deus sorteado, que deveria conter, também, uma palavra-chave nele. No meu caso foi o deus do Outono e minha palava chave foi “Padaria”. Minha ideia durante o conto inteiro era não dar gênero aos deuses (do Outono e do Verão), o que é bem difícil em português. Em diversas ocasiões tive que fazer um malabarismo com as palavras e talvez tenha ficado estranho de ler, mas eu sou teimoso e, no final, não ficou tão ruim.