Arquivos do incidente Entropia – Abril de 2017

O paradoxo do último projeto10 de Abril de 2017

Dois cientistas estão trabalhando em um novo aparelho misterioso. Eles são renomados pesquisadores e, apesar de não divulgarem sequer o tema de seus estudos ou qual o motivo de estarem criando algo que julgam ser revolucionário, a mídia e a comunidade científica espalham toda espécie de rumores e mentiras sobre o mistério.

Isso tudo se desenvolve em razão do interesse imenso no resultado da empreitada, tendo em vista os dois últimos trabalhos da dupla: uma máquina que realiza o teletransporte efetivo de pequenas quantidades de matéria e um filtro de materiais que remove de um objeto elementos químicos específicos à escolha do usuário. O público simplesmente não consegue conter a euforia por conta de algo que parece ser ainda mais grandioso que duas das maiores invenções da humanidade.

Os homens são amigos há muito tempo. Fizeram a faculdade juntos, foram alunos espetaculares e conseguiram méritos em suas carreiras como cientistas e inventores. Um deles se especializou em física teórica, tornando-se referência em tópicos de física quântica e assuntos similares. Já o outro ascendeu à fama como um engenheiro de renome, adquirindo grandes conhecimentos em física aplicada e química. Ambos se complementavam de forma incrível, tanto intelectual como emocionalmente.

Essa inteligência toda os tornou pessoas afastadas da sociedade. Nenhum deles mantinha qualquer tipo de relação com terceiros e, após a primeira invenção bem sucedida, um acelerador de partículas com consumo de energia quase nulo, passaram a aplicar os fundos obtidos em uma série de projetos, cada um mais espetacular que o anterior. Com o tempo suas noções da realidade os transformou em pessoas impossíveis de se lidar. Eles passaram a não ver razões para continuar existindo se não pela busca incessante pelo conhecimento. Entretanto, como tudo que existe, eles são limitados por seus corpos físicos e, angustiados com o pensamento de que morreriam algum dia e a sua busca iria terminar, decidem tomar uma decisão através de uma ideia que faz o mero conceito de realidade se contorcer.

Eles planejam por meses e, então, passam a construir um último invento: uma máquina que isola uma corpo material no tempo, fazendo com que se possa retardar ou acelerar seus efeitos como quiserem.

Quando aprende algo novo, o ser humano tem a tendência a tornar, eventualmente, sua descoberta pública. Como animais sociais faz sentido que tornemos nossos conhecimentos algo que será assimilado por futuras gerações, que, sabendo algo que não sabíamos, teriam mais oportunidades de prosperar.

Isso se for presumido, é claro, que estamos presos às nossas correntes biológicas e sociais. Não era o caso com os dois cientistas mais brilhantes do mundo. Eles já não estavam ligados de maneira alguma às outras pessoas. Um ser humano próximo era tão interessante quanto mais um de outros incontáveis dados a serem medidos e analisados em áreas de interesse diversas. O nível de intelectualidade ultrapassou o emocional a tal ponto que eles não se importaram em executar o plano que os afastariam da realidade da vida em um mundo social.

Sua máquina recém-criada foi ativada e os isolou da passagem do tempo. Idealmente eles poderiam trata-lo como mais uma dimensão a ser explorada, o aparelho seria mais uma ferramenta imprescindível na sua obtenção pelo conhecimento.

Mas algo deu errado, eles são humanos afinal. Os erros sempre existirão paralelamente às intenções de um indivíduo. A máquina não os permitiu controle algum sobre o tempo: ao invés disso eles se viram obrigados a observar enquanto tudo acontecia ao seu redor em um ritmo incompreensível. Tudo fica mais rápido em uma escala que tende ao infinito, eles veem civilizações caindo e ressurgindo, fenômenos espaciais de grandeza indescritível, matéria se desdobrando e se estruturando, sistemas de todas as naturezas sendo engolidos por sistemas maiores. Tudo que aconteceria durante todo o tempo, porém instantaneamente. Então eles veem o universo ruir, o próprio tecido do espaço se desfazer.

Quando tudo atinge a entropia e eles se encontram inertes na existência não é mais sequer possível ter desejado outra coisa quando abdicaram de sua própria humanidade. A história não teve fim, porque eles não permitiram que houvesse.

Relatos passados - 30 de Abril de 2017

A pequena comunidade científica que hoje em dia é tudo o que a mídia quer falar já foi um pouco maior. Houve um cientista aspirante, novo, estudioso da física quântica, e que sonhava em algum dia criar invenções revolucionárias e que impactassem a sociedade. Na época ele ficou sabendo de uma dupla em ascensão meteórica, um engenheiro e um físico, que inclusive era o maior pesquisador da mesma área do prodígio. Essa dupla terá, pela eternidade, o conjunto de mentes mais relevantes da existência, como também as mais desumanas.

O aspirante ficou obcecado por eles, estudava todos os resultados de suas invenções(ao menos os que eram revelados ao público), admirado em como os dois conseguiam tirar soluções incríveis com recursos relativamente limitados e tão pouca mão-de-obra. O jovem era aluno de doutorado na universidade onde o físico renomado atuava como pesquisador, sempre muito recluso, limitando ao mínimo as horas de permanência no trabalho. O doutorando tentou por diversas vezes se aproximar do gênio, buscando orientação em seu campo de pesquisa, exaltando suas obras e seus artigos, chegando ao ponto de verdadeira bajulação.

Suas tentativas em massa conseguiram um pequeno, porém notável, feito. Ele chegou a chamar a atenção da dupla. Os cientistas não aceitavam, sobre quaisquer circunstancias, a participação de mais alguém em seus trabalhos. Até que em certo momento não era mais uma opção, e precisaram de um atuador externo.

Ao saber que estavam precisando de mais um membro para as invenções, o aspirante deixou claro, então, que aceitaria participar em tudo que seus exemplos necessitassem de ajuda, desde que o informassem do mínimo sobre o funcionamento do experimento, e esse foi o seu penúltimo erro.

O aprendiz passava, então, horas conversando com o físico, fascinado com seus pensamentos. Ele não parava de pensar, por um minuto de seu dia, nas teorias do gênio. Seu novo mentor passou a falar sobre como as leis da física são variáveis de acordo com o universo em que são observadas. A conversa mais importante foi sobre a conjuntura das infinitas leis: em teoria, se existe um multiverso, existem infinitos conjuntos de leis que se aplicam a um ou mais deles. O universo no qual eles vivem seria parte de um subconjunto de universos que possuem leis iguais ou que são múltiplos de intensidade delas, mas que se comportam de maneira semelhante.

O primeiro e único experimento em que o jovem participou aplicaria essas ideias de uma forma impensável: ele se aproveitaria da ideia de leis dependentes e possibilitaria que uma região do espaço tivessem a intensidade das leis da física multiplicadas por um fator escalar.

O garoto não conseguia se conter. Ele não acreditava que funcionaria, era uma ideia tão impressionante que o levou a apressar a dupla em suas preparações. Seu último erro foi não os ter deixado trabalhar por mais tempo em alguns ajustes finais.

Chegando o dia de estrear a invenção, os três foram ao laboratório de testes, que consistia em uma sala de observação e outra de aplicação dos experimentos. O jovem adentrou a sala de aplicação e iniciou a máquina, tendo como alvo a própria sala. Ao ajustar a intensidade, que foi escolhida positivamente, um erro de projeto fez com que ela começasse a cair. Tudo estava terminado, e então a máquina começou a aplicar a transformação. As forças fundamentais, a velocidade das partículas dentro da sala, o próprio fluxo do tempo subitamente aumentaram de maneira brusca e, em seguida, começaram a descer. Até que a intensidade chegou a zero. Todas a todas as forças se anularam, o tempo não fazia mais sentido. O aspirante e toda a matéria da sala foram jogados em um ponto nulo, desaparecendo da realidade.

A dupla sabia dos riscos, mas os resultados foram inestimáveis. A máquina foi desativada, todos os vestígios da invenção foram apagados, e eles nunca mais trabalharam com outra pessoa.