Arquivos de um relato Espacial – Outubro de 2017

Em uma rocha situada em um ponto arbitrário em 3 dimensões um velho queria contar a seu sobrinho-neto que nem sempre foi assim:

— Isso é um luxo que nem sempre eu tive, filho.

— Ah, de novo esse papo de adulto que teve uma vida pior que a nossa e isso, por alguma razão, parece fazer com que tenhamos que trabalhar mais, que nada que fazemos é suficiente.

— Não se trata disso, minha criança.

— Eu tenho 26 anos.

— Tanto faz. Eu só queria contar uma história interessante enquanto a nave se reconstrói.

— Tem sorte de eu ser mesquinho o suficiente para andar com um kit de conserto automático dos mais baratos e lentos.

E então ele começou a história.

— Quando eu era mais novo, devia ter só uns quatro ou cinco anos a mais que você, eu ainda morava na outra ponta de prostranstvo.

— O que foi isso?  —  O jovem disse, surpreso.

— Desculpe, minha namorada na época era de origem russa e sempre me confundo com as palavras ao lembras dessas histórias. Bom, voltemos ao que interessa. Eu havia me separado do seu avô e nossos irmãos para ir atrás do sonho de ser um fazendeiro. Mas um fazendeiro de verdade. Você sabe do que estou falando?

— Acho que sim, há algum tempo eu abri um arquivo no álbum da família e vi uma foto sua com o que parecia ser, sei lá, era um tridente, aquilo? Com um cabo de um material marrom e —

— Ah sim, aquilo era um ancinho, com cabo de madeira. Bela ferramenta, meu jovem.

— Isso. Bom, me desinteressei antes de chegar na terceira foto. Nada fazia sentido naquilo lá.

— Ah, sim, mas não era para fazer mesmo. Veja bem, eu estava em uma colônia que tinha o intuito de preservar vários aspectos da cultura Humana desde que aquele pesquisador espertinho jogou a lei de Moore para fora da janela figurativa da existência e deu um jeito dos computadores ficarem duplamente mais potentes a cada semana. Depois disso era questão de poucos anos até toda a tecnologia ficar inacreditavelmente avançada.

— Essa parte eu conheço, todos aprendem isso nos módulos de ensino infantil. Eu nasci bem depois disso, aliás.

— Pois é. Sempre fui fascinado por cultura antiga e eu tinha acabado de perder seu primo Jack em um assalto à loja que ele tinha. O danado sempre tinha que defender o que era seu.

— Mas você não perdeu ele, na verdade —

— Chega de interrupções! Onde eu estava? Ah sim, fazendeiro. Eu perdi o Jack e caí em uma depressão profunda. Pensei que a única coisa que poderia me animar seria seguir o meu sonho, ainda mais nesse momento em que eu tinha menos a perder. Chegando na colônia vislumbrei tudo que eu precisava. A atmosfera era igual à da Terra, o ar era puro como o coração da minha ex-mulher, que a dimensão astral a tenha. Em pouco tempo conheci uma moça chamada Ira. Que mulher doce. Me ensinou tudo que eu sei sobre arar o campo, e aquele sotaque era apaixonante.

— Nada do que você aprendeu é útil aqui e, até onde eu sei, essa Ira não está com o senhor há muito tempo. Nunca nem mencionou ela, achei que minha avó tinha sido sua única esposa.

O velho o fitou, com olhar de quem sabia que não estava entretendo o garoto

— Nossa história era importante, guardei para esse momento. Ira morava na colônia há 5 anos na época e era muito habilidosa. Plantávamos milho; você tinha que experimentar, dá pra fazer tanta coisa com aqueles grãos! Todo tipo de comida que essas cápsulas de alimento não conseguem substituir!

Exaltando-se em raiva, o velho esperou até se recompor um pouco e continuou:

— Vivemos juntos plantando por alguns meses, até que o sonho acabou. Veja, manter colônias que não são lucrativas é caro ao governo universal. Cultura nunca foi, infelizmente, importante para esses burgueses babacas. Essa colônia, em especial, era de agricultura de subsidio. Todo o plantio era consumido ali ou trocado com as colônias vizinhas, então só tinha gastos e nenhuma renda. Não demorou muito até o Estado cortar toda a verba. Perdemos naves que eram usadas para compartilhar o que era gerado, cortaram os suprimentos de ferramentas e tudo mais. Foi muito triste, filho.

— E aí você caiu na real e voltou para essas bandas?

— Nem por tudo que existe! Eu só saí de lá arrancado, mas isso foi muito depois. Na época tinha algo que parecia ser a nossa salvação. Um grupo empresarial nos ofereceu o dinheiro que necessário para manter o nosso sonho, mas a um custo exorbitante. Na época ninguém lá entendia o quão caro seria.

— E o que era esse bem tão valioso?

— Uma das nossas dimensões, filho.

— Quê?

— Sim. E nós a vendemos, em acordo com trinta colônias vizinhas. Um setor que cobria o espaço que continha esses planetas teve uma dimensão removida. Passamos a viver em um plano.

— Nunca tinha ouvido falar nesse tipo de mudança dimensional antes. Como o senhor continuou vivendo nessa loucura?

— Ah, não se engane. De início fui de acordo, mas depois que vi o que aquilo causou eu quis me rebelar. Acontece que o espaço ao redor do setor não encaixava com as bordas do plano, então o único jeito de sair de lá era com teletransportadores. Eles foram instalados mas, claro, a empresa cobrava taxas de uso. Ninguém podia pagar, já que não gerávamos renda. Não era possível voltar atrás, pois os empresários já haviam aplicado a dimensão em outro setor, onde criaram um parque de diversões em que turistas pagavam para se sentir como mágicos que atravessavam paredes. Após dois meses a revolta dos fazendeiros era geral, inclusive Ira fez jus ao seu nome. Ela liderava a frente de negociação com empresários. A negociação durou um ano e meio e, enquanto isso, aturamos ter que contornar meia cidade para chegar à plantação que estava a cinco metros. Você não sabe o quão claustrofóbico e enlouquecedor é viver em duas dimensões, filho. Depois de muita burocracia, Ira conseguiu um acordo.

O jovem se viu interessado, inclinado para ouvir a história.

— E o que era esse acordo?

— Eles concordaram em dobrar o plano. Imagine que você tem uma toalha —

— O que é isso?

— Nada de muito útil no espaço dos dias de hoje. Mas é uma estrutura flexível de tecido. Pense em algo do tipo. Ao dobrar uma toalha você faz lados opostos se tocarem, criando a aparência ao avista-la de longe que é um objeto consideravelmente sólido. Foi mais ou menos isso que aqueles cretinos fizeram. De início ajudou um pouco, mas ainda era complicado evitar que correntes elétricas que deveriam ir para uma parte do plano não escapassem para o lado oposto, então nenhuma máquina grande funcionava. Depois de alguns meses descobrimos que a dobra foi mal calculada  —  nem isso aqueles idiotas queriam fazer de forma decente  —  e parte dela entortou a borda do espaço, de forma que um dos planetas, consistido em grande parte por plantadores de trigo, calhou de ficar em parte fora do setor planificado. Não fosse o bastante, essa parte tinha um repositório de naves, e foi o suficiente para os habitantes escaparem e guerrearem com os corporativos.

— Parece que foi uma batalha perdida, não? Afinal, o senhor está aqui hoje.

A nave já estava consertada e eles caminhavam para ela. O velho olhava fixamente para o veículo, com um rosto preenchido por satisfação, enquanto o jovem o fitava, ansioso.

— Muito pelo contrário. Todos os empresários eram nascidos depois da explosão tecnológica. Nenhum deles sabia se defender de um ancinho.